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sexta-feira, 12 de junho de 2009

ARTIGO: Uma prévia de Delírios

Por Maycol Mundoca - de Redenção
A cidade de Redenção tem sua noite quente.Alguns nem sabem por que bebem, outros bebem pelo calor, há quem beba pelo amor. Você bebe por desesperança, a visão que tem não é a das melhores. As noticias que lhe chegam aos ouvidos são dolorosas: “Morte de criança ainda é mistério”. “Maranhense é preso com mais de 100 gramas de crack”. “Câmara parcela dívida”. “Câmara reage à eventual transferência de órgãos”.
Você fica preocupado com o futuro de seus filhos, e bebe para amortecer a alma e congelar o pensamento. Nem todos se preocupam, alguns bebem por beber.
Os bêbados da cidade são mais solidários que os empresários. Pais vendem ovos de codorna e sustentam famílias inteiras.
As mulheres passam indiferentes com seus lencinhos amarrados nos pescoços, enquanto as crianças vendem chocolate na noite quente e andam tristes com os pés descalços.
As criancinhas têm o ruído de suas unhas abafadas, por caminhonetes espalhafatosas. Cada uma traz seu som perturbador que ecoa na noite e assustam as meninas que silenciosas voltam das escolas.
Os jovens exibem seus brinquedinhos imponentes motos que valem casas... Carros que valem toda a sua vida de trabalho.
A polícia e o ladrão dividem a mesma mesa. Você não sabe em quem confiar. O último que se atreveu a dizer que todos “eram farinha do mesmo saco” teve as mãos amarradas nas costas e uma lona preta tapou o céu mais estrelado de sua vida. Sumiu, e não virou nem notícia.
Você divide a mesa com a verdade viva. Ela é nua e crua: “Presos vivem em condições desumanas”. “Homem é morto a facadas em via pública”. “Polícia recupera moto roubada e desvenda quadrilha”. “Homem é assaltado na porta do INSS”. “Vereadores decretam situação de emergência nas estradas”.
Há quem se preocupe com o destino do planeta; a maioria não. A maioria se preocupa com seu próprio bolso e com sua própria barriga. Fazem trambique, adulteram, transferem, esquematizam, fazem de nosso futuro contas, números, estatísticas... Você e todos eles não fazem parte dessa equação, tudo é fruto de algo maior. Você mendiga.
Você se cansou disso tudo. Falta um pedaço do seu salário; são contribuições absurdas, multas inexplicáveis. O seu holerite até tenta lhe explicar, mas você sem muito ânimo apenas balança a cabeça.Nas ruas esburacadas presas ao nada, os moleques brincam e se esmurram por uma bola feita de saco plástico, jogam-na de um lado a outro como os governantes chutam os seus sonhos. Você apenas suspira. Segue calado.
Ao chegar a casa sua mulher o abraça e diz que está cansada, foi assaltada pela vigésima vez em um mês.
– Não aguento mais. Ela desaba num murmúrio.
O seu filho quer saber de novo o que aconteceu com a carne. Você muda de assunto e fala sobre o jogo do Flamengo (ou o time que você escolher. Tanto faz).Engole a comida a seco. Assim como engole as últimas notícias, as últimas leis, as últimas sacanagens que os donos do mundo decidiram.
Sobrou-lhe pouca coisa de dignidade; sobraram-lhe alguns trocados.
Você segue andando vazio na noite quente.
Há essa necessidade de explicar que nem todos se sentem assim, apenas alguns.
Os que se preocupam com o destino de tudo e com o que o cotidiano tem feito de suas vidas.
Os outros se enganam. Riem, brincam, pulam. Bebem sem saber por que beber.
Você bebe pra amortecer a alma, pra aguentar o tranco, pra não amolecer, pra suportar mais um dia, mais um noticiário da TV. Você bebe pra não olhar nos olhos das crianças que vendem bombons, e que deixam as unhas cravadas nas calçadas... Nas praças e nos bares frios.
É Redenção. Vai dos olhos de quem a ver. Ou isso, ou a ressaca está me enlouquecendo.