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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Redenção: Polícia investiga execução de sindicalista da Fetraf


O assassinato do coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), Pedro Alcântara de Souza, goiano, de 55 anos, baleado no final da tarde de quarta-feira (31) em Redenção, comoveu a população local. O sindicalista tinha 14 anos de vida pública e residia em Redenção há mais de 30 anos. Alcântara foi executado com quatro tiros na cabeça, disparados à queima roupa por dois homens que estavam em uma motocicleta. Na foto, Pedro Alcântara e sua esposa Marielza.

O CRIME: O assassinato aconteceu no setor Park dos Buritis, um bairro afastado do centro da cidade. O sindicalista foi executado quando passeava com a esposa, Marielza de Souza, que não foi atingida pelos disparos fatais. Na Delegacia de Redenção a viúva deu detalhes do crime. "Passeávamos na praça quando uma motocicleta se aproximou por trás, sendo que nela estavam dois homens. Depois só ouvi disparos, com meu marido caindo, já agonizando. Eles atiraram e fugiram muito rápido", disse Marielza.

INVESTIGAÇÃO: Para investigar o assassinato do sindicalista, chegou na manhã de quinta-feira (1º) à Redenção uma equipe do Grupo de Combate ao Crime Organizado (GCCO), comandada pelo delegado Alberto Teixeira. Ele disse que já possui algumas informações sobre o crime, ainda mantidas em sigilo. O delegado afirmou ainda que por ser um coordenador regional da Fetraf, com cinco anos à frente da instituição, não está descartada a possibilidade de o crime ter relação com conflito agrário. Teixeira disse ainda que a polícia se empenhará para desvendar o crime. "Uma vez que o governo não compactua com qualquer tipo de ação criminosa".

ENTERRO: O corpo do sindicalista foi sepultado no final da tarde de quinta-feira (1º) no Cemitério Municipal de Redenção. Durante o cortejo, da sede da igreja Batista, onde o corpo foi velado, até o cemitério, centenas de amigos e companheiros de Pedro Alcântara, entre políticos e lideranças da região, acompanharam o caixão. Pedro Alcântara de Souza deixou esposa e três filhos, dois deles menores de idade. Compareceu no velório do sindicalista o desembargador Gercino Jose Silva Filho, ouvidor agrário nacional; Cláudio Rodrigues Braga, da Comissão Nacional de Combate a Violência no Campo; e o assessor de mediação de conflitos agrários, Ailson Silveira Machado.

ENCOMENDA: O coordenador da Fetraf no Pará, Francisco Ferreira de Carvalho, se disse "chocado" com o assassinato brutal. Para ele, tratou-se de crime de encomenda por conta de questões agrárias. O coordenador disse ainda que o sindicalista estava na lista das lideranças marcadas para morrer no Pará e que ele havia recusado segurança oferecida pelo governo do Estado. "Entramos em contato com a Secretaria de Segurança Pública e o delegado do interior pedindo celeridade nas investigações e a punição dos culpados", disse Francisco Carvalho, conhecido como "Chico da Fetraf".

IMPUNIDADE: O advogado José Batista Afonso, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, em Marabá, disse que o assassinato do sindicalista representa mais um atentado contra os menos favorecidos e o triunfo da impunidade, que cresce a cada dia no Pará. "É mais um representante dos humildes que tomba diante da inércia das autoridades, que não conseguem resolver o problema agrário do Estado", disse Batista.

INVASÃO: À frente da Fetraf, além de participar diretamente da coordenação da invasão de uma das propriedades grupo do banqueiro Daniel Dantas, a fazenda Cedro, situada na zona rural de Marabá, em meados de setembro de 2009, Pedro Alcântara, liderou um grupo de colonos que acampou na sede do Incra de Marabá exigindo a desapropriação de várias áreas para fins de reforma agrária.

DESOCUPAÇÃO: Os membros da Fetraf queriam a urgente desapropriação de seis fazendas situadas no sul do Pará. No centro da questão estavam as fazendas "Cristalino", localizada na zona rural de Santana do Araguaia, com uma área superior a 55 mil hectares de terra, e a fazenda Estrela de Maceió, em Cumaru do Norte, com área de 80 mil hectares.

CPT: Atentados contra lideranças rurais e agricultores estão voltando a ganhar força no Estado. Só no ano passado foram registrados mais de dez assassinatos em vários municípios paraenses, por conta de conflitos agrários. Antes de Pedro Alcântara, uma liderança rural do município de Dom Eliseu foi executada por um grupo de pistoleiros dentro da fazenda Pau Terra. Um fazendeiro e o filho dele foram denunciados como mandantes do crime e tiveram prisão preventiva decretada pela justiça. Meses após a morte do sem-terra, o TJE do Pará concedeu liminar para que os mesmos respondessem ao processo em liberdade. Os homens apontados como autores do homicídio seguem até hoje na condição de foragidos da justiça. Entidades ligadas aos direitos humanos e movimentos sociais têm cobrado das autoridades paraenses empenho na elucidação dos homicídios e celeridade no julgamento dos envolvidos. "Infelizmente, este é mais um caso comprovado de que as ameaças de morte estão sendo cumpridas por aqueles que se acham intocáveis e acima do bem e do mal", afirmou o advogado da CPT, José Batista Afonso.

CARTEL: Na região sul e sudeste do Pará, a morte de lideranças e sindicalistas segue uma tabela de preços, cujos valores são avaliados conforme a importância da vítima. Geralmente, os mais visados são padres e representantes religiosos pelos quais os algozes chegam a receber até R$ 50 mil pela execução. "Seguramente existem hoje cerca de 70 lideranças marcadas para morrer em todo o Estado do Pará", garante Batista. (Colaboração: João Lopes)